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Poder · · 4 min de leitura

O Globo propõe revisar programas sociais para poupar R$ 22,3 bi

O Globo defende revisão do Bolsa Família e do BPC com base em estudo do Insper. Entenda o que está em jogo para 18,9 milhões de famílias beneficiadas.

Por Redacao esquerda.blog
TL;DR · 4 min de leitura

O Globo defende revisão do Bolsa Família e do BPC com base em estudo do Insper. Entenda o que está em jogo para 18,9 milhões de famílias beneficiadas.

O jornal O Globo publicou nesta quinta-feira editorial pedindo que o próximo governo faça da revisão de programas sociais uma prioridade. A base do argumento é um estudo do Insper que aponta potencial de economia de até R$ 22,3 bilhões por ano, sem necessidade de aprovação pelo Congresso.

Apontado como principal alvo, o Cadastro Único (CadÚnico), banco de dados que serve de porta de entrada para benefícios como o Bolsa Família, teria falhas graves de fiscalização. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União realizada em 2023 identificou que dois em cada dez domicílios inspecionados recebiam o benefício com renda familiar acima dos critérios do programa, conforme relata O Globo.

Nesta semana, a Caixa Econômica Federal paga a parcela de abril para 18,9 milhões de famílias, com gasto mensal de R$ 12,8 bilhões, segundo a Terra. O valor médio chegou a R$ 678,22, reflexo dos adicionais por criança, gestantes e nutrizes, conforme apurou o ABC+.

O que o editorial realmente propõe

O texto não questiona a importância dos programas, reconhecidos como conquista da redemocratização. O problema apontado é de gestão: a portaria que prevê verificação domiciliar de 20% dos inscritos no CadÚnico mal alcança metade dessa meta. A solução sugerida é cruzar dados de diferentes instituições públicas para detectar irregularidades com mais eficiência.

Bolsonaro também leva crítica no texto: entre 2018 e 2023, o gasto com o Bolsa Família saltou de 0,4% para 1,6% do PIB sem manter foco nos mais necessitados, num movimento classificado pelo jornal como eleitoreiro. O editorial reconhece que o governo Lula aumentou o rigor das exigências, mas aponta que o patamar de gasto foi mantido.

Há consistência técnica no argumento. Mas parte das chamadas “irregularidades” reflete a instabilidade da pobreza: famílias que entraram no programa em momento de vulnerabilidade e tiveram uma pequena melhora de renda não são necessariamente fraude. São pessoas que oscilam na fronteira.

O que o governo Lula já entregou

O governo Lula 3 apresentou em agosto de 2025 um balanço de quase três anos de gestão. Os números sociais são concretos: 8,7 milhões de pessoas saíram da pobreza e 3,1 milhões saíram da extrema pobreza até 2023; a desigualdade caiu 4,7%, atingindo o menor patamar desde 2012. O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, de acordo com balanço publicado pelo PCdoB.

Nos primeiros 100 dias do terceiro mandato, o programa já garantia R$ 600 mensais para cerca de 21 milhões de famílias, com adicional de R$ 150 por criança de até 6 anos, beneficiando 8,9 milhões de crianças. Os dados foram reunidos pelo PT de Minas.

O risco que o debate não nomeia

A discussão sobre eficiência é legítima e necessária. O problema começa quando ela serve de embalagem para cortes lineares. O Brasil tem histórico de usar auditorias como primeiro passo para redução de cobertura, não para melhoria da focalização.

Cumprir a meta de 20% de verificação domiciliar no CadÚnico exige investimento: mais tecnologia, mais servidores, busca ativa nas comunidades. Cruzar dados pode ajudar, mas tem limites quando a informalidade é a norma de renda para boa parte dos beneficiários. A portaria não é cumprida porque o Estado não tem estrutura suficiente, não porque haja má-fé.

O contexto histórico pesa aqui. O Bolsa Família surgiu no primeiro governo Lula e tornou-se um dos programas sociais mais estudados e premiados do mundo. Revisá-lo com rigor é necessário; reduzi-lo com pressa é um erro que se paga na pele de quem mais precisa.

O teste que vem pela frente

Com eleições em outubro, o próximo governo herda um ambiente fiscal apertado e promessas a cumprir. A questão é direta: quando se fala em revisão de programas sociais, quem arca com o custo do erro? Uma família cortada indevidamente não tem para onde recorrer enquanto o recurso tramita. Eficiência real não é só economizar dinheiro; é garantir que cada real chegue a quem precisa. E isso, historicamente, exige mais Estado, não menos.

Perguntas frequentes

O que é o Benefício de Prestação Continuada (BPC)? O BPC é um benefício constitucional de um salário mínimo pago a pessoas com deficiência ou idosos acima de 65 anos em situação de pobreza, sem necessidade de contribuição previdenciária prévia.

O Bolsa Família pode ser cortado em 2026? Não há proposta formal em tramitação para extinguir o programa. O editorial de O Globo propõe revisão de critérios e focalização, não eliminação.

Como verificar informações sobre o meu Bolsa Família? O beneficiário pode consultar valores, datas de pagamento e composição das parcelas pelo aplicativo Caixa Tem, disponível gratuitamente para celular.

O que concluiu a auditoria do TCU sobre o Bolsa Família? A auditoria de 2023, com verificação domiciliar em amostra aleatória, encontrou que dois em cada dez domicílios tinham renda acima dos critérios do programa no momento da inspeção.

Fontes
  • oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2026/04/revisao-de-programas-sociais-deveria-ser-prioridade-do-governo.ghtml
  • ptmg.org.br — https://ptmg.org.br/veja-as-principais-conquistas-dos-100-dias-do-governo-lula/
  • pcdob.org.br — https://pcdob.org.br/2025/08/governo-lula-3-apresenta-seus-principais-avancos-confira-area-a-area/
  • terra.com.br — https://www.terra.com.br/noticias/bolsa-familia-paga-nesta-quarta-22-parcela-de-abril-a-beneficiarios-com-nis-final-4,fda6c2887e396460dd137da4727b3b1fm19pywon.html
  • abcmais.com — https://www.abcmais.com/economia/caixa-paga-bolsa-familia-a-beneficiarios-veja-quem-recebe-nesta-quinta-feira-23/
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