Negros são maioria no gramado, mas minoria no banco: o abismo racial do futebol brasileiro
Dados do Observatório da Discriminação Racial revelam que 90% dos treinadores da Série A são brancos, enquanto negros dominam o campo. Entenda as causas e consequências.
Dados do Observatório da Discriminação Racial revelam que 90% dos treinadores da Série A são brancos, enquanto negros dominam o campo. Entenda as causas e consequências.
Negros representam mais da metade dos jogadores profissionais no Brasil. Nos bancos de reservas da elite, porém, são menos de 8%. O dado vem do Observatório da Discriminação Racial do Futebol, que compilou levantamentos de 2024 e 2025 e expõe um abismo: 90% dos técnicos da Série A são brancos, segundo os pesquisadores Donald Alves da Silva, da Unifesp, e Flavia da Cunha Bastos, da Universidade Santo Amaro Agenzia. A conta não fecha. E não é de hoje.
Em 2022, a Série A tinha um único treinador negro: Jair Ventura, no Goiás. A Série B contava com dois — Hélio dos Anjos na Ponte Preta e Roger Machado no Grêmio Baobá. Três anos depois, o cenário mal mudou. Roger Machado, único negro na primeira divisão em 2025, foi demitido do São Paulo. A porta girou, mas a cor de quem entra segue a mesma.
A reação do mercado
“Tive o prazer de entrevistar o Roger Machado, e ele falou algo que é o passaporte da branquitude”, relatou o jornalista Jailson Vilas Boas, da ESPN, em entrevista à Agenzia. A frase resume o mecanismo: o jogador negro entrega técnica e físico na base, mas ao subir para cargos de comando — auxiliar, treinador, diretor — esbarra em filtros invisíveis. A experiência exigida do negro é sempre maior; o branco jovem é “promissor”, o negro jovem é “inexperiente”.
O padrão se repete fora do Brasil. Na NFL, 70% dos atletas são negros, mas donos, gerentes e técnicos majoritários são brancos bilionários Alma Preta ]. Um ex-dono de franquia chegou a dizer que jogadores insatisfeitos deveriam “voltar para a África”. No Brasil, o mito da força física negra versus inteligência tática branca persiste — herança direta da escravidão, sem qualquer base científica. A natação já provou: o que faltava a atletas negros não era flutuabilidade, era piscina.
A mídia esportiva reforça a assimetria. Durante décadas, a narração associou o corpo negro à explosão, ao drible, à raça; a brancura, à visão de jogo, à liderança, à “cabeça”. Comentaristas e dirigentes internalizam o roteiro. O resultado: cargos de decisão — comissão técnica, diretoria, presidência — seguem majoritariamente brancos, enquanto o gramado continua negro.
O que os números não dizem
O diretor do Observatório, Marcelo Carvalho, aponta o dado mais grave: “O mais impressionante não é que não existam treinadores negros, mas que esse debate nem exista no futebol brasileiro”. A sociedade não se espanta porque não vê negros nesses espaços em nenhum setor. O futebol apenas espelha o país. Políticas de cotas em universidades e no serviço público, ampliadas nos governos Lula, mostraram que ação afirmativa muda a cara das instituições. No esporte, a CBF ainda resiste a metas ou incentivos para formação de técnicos negros — cursos de licença A e Pro seguem caros, distantes e sem reserva de vagas.
Enquanto não houver cobrança pública, transparência nos processos seletivos dos clubes e base de formação diversa também nas comissões técnicas de base, o passaporte da branquidade continuará valendo mais que a licença da CBF. A bola pune quem erra o passe. A estrutura pune quem nasce com a cor errada para comandar.
Perguntas que o leitor faz
Por que há tão poucos técnicos negros no Brasil? Racismo estrutural, falta de acesso a cursos de alto nível, ausência de políticas de incentivo e o estereótipo de que negros servem para jogar, não para pensar o jogo.
Quantos técnicos negros havia na Série A em 2025? Nenhum. Roger Machado, do São Paulo, era o único e foi demitido no primeiro semestre.
A CBF tem alguma meta de diversidade para comissões técnicas? Não há meta pública nem programa de cotas para formação de treinadores negros nas licenças da entidade.
O que diz a lei sobre discriminação no esporte? A Lei Geral do Esporte (2023) prevê punições para atos discriminatórios, mas não estabelece metas de representatividade em cargos de liderança.
Conforme noticiado pelo fute.blog, a pressão por transparência nos clubes aumentou após a demissão de Roger Machado.
- agenzia.inf.br — https://agenzia.inf.br/porque-tecnicos-negros-ainda-sao-minoria-no-futebol-brasileiro
- baoba.org.br — https://baoba.org.br/futebol-brasileiro-continua-sem-dar-chance-a-treinadores-negros-e-fora-do-campo-crescem-os-casos-de-racismo-contra-jogadores-e-torcedores
- almapreta.com.br — https://almapreta.com.br/sessao/quilombo/correm-mas-nao-comandam-porque-o-racismo-estrutural-ainda-mantem-pretos-fora-do-poder-no-esporte