Pesquisa expõe remoções forçadas herdadas de megaeventos no Brasil
Pesquisa da Revista Katálysis revela que remoções forçadas em periferias brasileiras continuaram mesmo na pandemia, expondo a lógica dos megaeventos esportivos.
Pesquisa da Revista Katálysis revela que remoções forçadas em periferias brasileiras continuaram mesmo na pandemia, expondo a lógica dos megaeventos esportivos.
Enquanto palcos internacionais se erguem e holofotes se apagam, os rastros das remoções forçadas ficam. Um artigo publicado na Revista Katálysis revisita a atuação do Museu das Remoções e documenta como a disputa por territórios urbanos, aquecida por megaeventos esportivos, nunca parou, nem durante uma pandemia.
O Museu das Remoções nasceu da resistência da Vila Autódromo, comunidade no Rio de Janeiro que enfrentou demolições para viabilizar as obras dos Jogos Olímpicos de 2016. O que os pesquisadores encontraram vai além daquele caso: a lógica que expulsou famílias na Rio 2016 seguiu operando anos depois, mesmo com o Brasil paralisado pela Covid-19.
A pesquisa, baseada em debates gravados e transcritos ao longo de 2020 e 2021, mostra que despejos e remoções não respeitaram as restrições sanitárias vigentes. Famílias foram desalojadas em plena pandemia de alta letalidade. Um dado que diz muito sobre a hierarquia real de prioridades do Estado brasileiro.
A lógica do capital imobiliário
Segundo o estudo, a disputa por territórios nas cidades brasileiras atende, fundamentalmente, aos interesses do capitalismo imobiliário. Megaeventos como Copas do Mundo e Olimpíadas funcionam como catalisadores desse processo: valorizam áreas, justificam obras públicas e criam urgência política para remoções que, de outra forma, enfrentariam resistência maior da população afetada.
Os pesquisadores documentam como o Estado se mostrou insuficiente para garantir moradia digna, e como essa insuficiência tem endereço certo. São comunidades de baixa renda, periféricas, históricas, que pagam a conta do que se convencionou chamar de “legado” dos grandes eventos. Não por acaso, pesquisadores reunidos em publicações como Horizontes Antropológicos colocam esse termo entre aspas há anos.
O estudo registrou ainda violência concreta nos processos de despejo. Não apenas o impacto de perder a casa, mas ações que desconsideravam qualquer protocolo sanitário em plena crise de saúde pública. A Revista Katálysis destaca que essa dinâmica expõe como o capitalismo imobiliário foi capaz de inviabilizar até medidas básicas de saúde coletiva durante uma pandemia com elevada letalidade.
Durante a pandemia, o movimento precisou reinventar suas estratégias, migrando debates para o ambiente virtual. Os registros de 2020 e 2021 mostram tanto a resiliência dessas organizações quanto a urgência das pautas que carregam. No mesmo período em que o debate sobre impactos dos megaeventos crescia no país, como documentou o fute.blog em suas coberturas esportivas, os atingidos pelas remoções seguiam organizados e resistentes.
Memória contra o esquecimento
Há um padrão que se repete. No Brasil, cada grande evento esportivo deixou um rastro de comunidades deslocadas, infraestruturas subutilizadas e promessas não cumpridas. A Rio 2016 é o exemplo mais documentado, mas a Copa do Mundo de 2014 também produziu remoções em cidades como Fortaleza, Belo Horizonte e Porto Alegre. O que o estudo faz é sistematizar esse repertório e mostrar que não se trata de acidente, e sim de padrão.
No contexto atual, com novos ciclos de investimento em infraestrutura e desenvolvimento urbano debatidos no governo Lula, o alerta dos pesquisadores é direto: sem proteção robusta às comunidades vulneráveis, projetos futuros correm o risco de reproduzir a mesma lógica de exclusão. A memória do Museu das Remoções existe para que “desenvolvimento” não se torne eufemismo de despejo.
O que fica depois dos holofotes
O estudo não é uma denúncia isolada. É parte de um campo acadêmico e de movimentos sociais que há décadas tentam colocar o direito à moradia no centro do debate urbano brasileiro. Ao transformar a própria luta em acervo, o Museu das Remoções recusa que essas histórias sejam apagadas quando a tocha olímpica se apaga.
A questão que permanece é simples: para quem, afinal, são feitos os megaeventos?
Perguntas frequentes
O que é o Museu das Remoções? É um movimento social e projeto de memória criado por moradores da Vila Autódromo, comunidade do Rio de Janeiro removida para as obras dos Jogos Olímpicos de 2016. O museu documenta histórias de resistência e luta pelo direito à moradia.
As remoções forçadas continuaram durante a pandemia de Covid-19? Sim. O estudo publicado na Revista Katálysis registra que despejos ocorreram mesmo durante as restrições sanitárias de 2020 e 2021, evidenciando que a pressão do mercado imobiliário sobrepôs até protocolos de saúde pública.
Por que megaeventos esportivos são associados a remoções? Porque frequentemente exigem obras em áreas valorizadas das cidades, criando incentivos econômicos e políticos para deslocar comunidades de baixa renda que ocupam esses territórios há décadas.
O que o governo pode fazer para proteger comunidades ameaçadas de remoção? Pesquisadores apontam para a necessidade de mecanismos legais que garantam participação das comunidades afetadas, acesso a moradia digna e responsabilização em casos de despejo arbitrário. Programas habitacionais são passos importantes, mas insuficientes quando atuam isolados de políticas de proteção territorial.
- journals.openedition.org — https://journals.openedition.org/horizontes/156?lang=fr
- redalyc.org — https://www.redalyc.org/journal/1796/179674360010/html/