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Economistas reveem ceticismo: IA pode afetar 37 milhões no Brasil

Relatórios do ITS Rio, FGV e OIT revelam que 37 milhões de brasileiros podem ser impactados pela IA, enquanto menos de 30% têm qualificação digital suficiente para se adaptar.

Por Sofia Albuquerque · Correspondente Internacional
TL;DR · 5 min de leitura

Relatórios do ITS Rio, FGV e OIT revelam que 37 milhões de brasileiros podem ser impactados pela IA, enquanto menos de 30% têm qualificação digital suficiente para se adaptar.

Trinta e sete milhões de trabalhadores brasileiros. É o número que o ITS Rio projeta como impacto potencial da inteligência artificial no mercado de trabalho nacional. Dois milhões desses trabalhadores correm risco de ver suas funções completamente automatizadas. Não é ficção científica: são projeções baseadas em dados do FMI, da OIT e do Banco Mundial.

Por anos, economistas trataram o alarmismo sobre empregos e inteligência artificial com ceticismo próximo do desdém. Demissões que empresas atribuíam à IA eram vistas como pretexto tecnológico, executivos preferindo culpar a máquina a admitir má gestão. Esse ceticismo, porém, está cedendo.

Daniel Rock, economista da Universidade da Pensilvânia especializado no impacto econômico da IA, resumiu a virada de posição em entrevista ao O Globo: “Não acho que a IA já tenha atingido o mercado de trabalho de forma radical, mas acho que está chegando.” A maioria dos especialistas ainda não vê sinais claros de disrupção nos dados agregados. O que mudou é a disposição de levar o risco a sério.

O que os números dizem

Uma equipe de pesquisadores consultou economistas sobre perspectivas para os próximos cinco e vinte e cinco anos. O cenário global já é inquietante: segundo estudo citado pelo FGV IBRE, cerca de 80% da força de trabalho nos Estados Unidos pode ter ao menos 10% de suas tarefas afetadas por modelos de inteligência artificial generativa. Outros 19% dos trabalhadores americanos podem ter mais da metade de suas atividades impactadas.

A análise mais reveladora é que o problema não se limita a quem está no fundo da pirâmide salarial. Ocupações de renda mais alta, centradas em tarefas analíticas e de processamento de informação, podem ter exposição ainda maior à automação. A FENATI aponta que funções administrativas tradicionais, rotinas contábeis básicas e o jornalismo impresso sem adaptação digital estão entre os segmentos mais vulneráveis no curto prazo.

O agravante brasileiro

Para o Brasil, o cenário tem uma camada extra de complexidade. Oito em cada dez empregos são gerados por micro e pequenas empresas, segmento que raramente tem acesso às ferramentas digitais mais avançadas. Isso cria um paradoxo: as maiores empregadoras do país são também as que menos conseguem acompanhar o ritmo da mudança tecnológica.

Some-se a isso um dado preocupante sobre qualificação: menos de 30% dos brasileiros têm habilidades digitais básicas, segundo o ITS Rio. Na prática, a maior parte da população não consegue nem usar as ferramentas de IA disponíveis hoje, muito menos se adaptar às que virão. Conforme noticiado pelo scienceai.news, o avanço da inteligência artificial tem sido mais veloz do que qualquer revolução tecnológica anterior, incluindo o computador pessoal e a internet.

O que está em jogo para quem trabalha

A forma mais útil de entender o impacto da IA no trabalho não é pela profissão, mas pelas tarefas dentro de cada função. A tecnologia pode automatizar o que já é feito por humanos, criar novas funções intensivas em trabalho ou aumentar a produtividade de quem já está empregado. O problema é que esse último cenário tende a beneficiar quem já tem mais escolaridade e acesso digital. Quem está fora desse circuito carrega o maior risco de ficar para trás.

No governo Lula 3, há uma escolha que não pode ser adiada indefinidamente. Políticas de requalificação profissional, inclusão digital e proteção ao trabalhador precisam ser construídas antes que a disrupção já tenha chegado. Países como Alemanha, Portugal e Austrália já implementaram estratégias mais ambiciosas nessa direção, e o Brasil tem janela para agir, mas essa janela não fica aberta para sempre.

O futuro do trabalho depende das decisões de hoje

O fato de economistas historicamente céticos estarem revisando suas posições é um sinal importante. Não de que o colapso do emprego seja inevitável, mas de que a inação tem um custo real e crescente. A pergunta que fica: os formuladores de políticas públicas vão se preparar antes da virada, ou vão reagir apenas depois que o estrago já estiver feito?

FAQ

Quantos trabalhadores brasileiros podem ser afetados pela IA?

Segundo relatório do ITS Rio com base em dados da OIT e do Banco Mundial, até 37 milhões de trabalhadores brasileiros podem ser impactados de alguma forma pela IA. Dois milhões desses trabalhadores correm risco de automação completa de suas funções.

Quais profissões estão mais ameaçadas pela inteligência artificial?

Funções com alta dependência de tarefas repetitivas e de processamento de informação são as mais vulneráveis. Entre elas estão cargos administrativos tradicionais sem qualificação digital, rotinas contábeis básicas e o jornalismo impresso sem adaptação para plataformas digitais.

Por que os economistas mudaram de posição sobre o impacto da IA?

Por anos, o ceticismo dominava: demissões atribuídas à IA eram vistas como pretexto de má gestão. A mudança veio com evidências de que as transformações nas tarefas dentro de cada ocupação já estão em curso, mesmo que o impacto macroeconômico ainda não apareça nos dados agregados.

O que o governo pode fazer para proteger os trabalhadores?

Especialistas apontam três eixos: políticas robustas de requalificação profissional, inclusão digital massiva (menos de 30% dos brasileiros têm habilidades digitais básicas) e apoio específico a micro e pequenas empresas, responsáveis por 8 em cada 10 empregos no Brasil.

Fontes
  • oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2026/04/04/economistas-ja-foram-ceticos-em-relacao-a-ameaca-da-ia-aos-empregos-entenda-por-que-mudaram-de-ideia.ghtml
  • itsrio.org — https://itsrio.org/pt/publicacoes/ia-no-mercado-de-trabalho-quem-ganha-quem-perde-e-quem-fica-para-depois/
  • ibre.fgv.br — https://ibre.fgv.br/blog-da-conjuntura-economica/temas/impactos-do-avanco-da-inteligencia-artificial-no-mercado-de
  • fenati.org.br — https://fenati.org.br/ia-aponta-quais-profissoes-ameacadas/
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