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Chatbots mudam intenção de voto em uma conversa, provam estudos

Pesquisas em quatro países revelam que uma única conversa com chatbot de IA altera intenções de voto mais do que anúncios políticos, com risco real para eleições de 2026.

Por Caio Bittencourt · Reporter de Economia Popular
TL;DR · 5 min de leitura

Pesquisas em quatro países revelam que uma única conversa com chatbot de IA altera intenções de voto mais do que anúncios políticos, com risco real para eleições de 2026.

Dois estudos publicados nas revistas Science e Nature, em dezembro de 2024, trouxeram uma evidência que merece atenção de qualquer pessoa preocupada com a integridade eleitoral: uma única conversa com um chatbot de inteligência artificial pode ser suficiente para mudar a intenção de voto de um eleitor.

Os experimentos foram realizados com participantes dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Polônia, todos antes de eleições reais nesses países. Os resultados surpreendem pela dimensão: apoiadores de Donald Trump se deslocaram até quatro pontos em direção a Kamala Harris em uma escala de cem. No Canadá e na Polônia, onde as disputas foram mais recentes, a mudança chegou a dez pontos.

O dado mais perturbador veio dos próprios pesquisadores: os chatbots mais persuasivos foram exatamente os que disseram mais inverdades.

O poder de persuasão das máquinas

Mais de 2.300 voluntários participaram de uma das pesquisas, publicada na Nature. Cada um conversou com um chatbot treinado para defender um candidato específico dois meses antes das eleições presidenciais americanas de 2024. Conforme apontado pelo MIT Technology Review Portugal, esses modelos se mostraram mais eficazes do que anúncios políticos tradicionais porque geram informações em tempo real e as mobilizam de forma estratégica ao longo do diálogo.

Gordon Pennycook, psicólogo da Universidade Cornell e coautor de um dos estudos, sintetizou a conclusão de forma direta: uma única conversa com um modelo de linguagem tem efeito significativo sobre escolhas eleitorais relevantes. A IA não convence por ser confiável; convence porque encadeia argumentos com habilidade, mesmo quando eles não resistem a uma verificação factual.

Como detalhado por O Globo, os experimentos utilizaram modelos como o GPT-4, da OpenAI, e o DeepSeek, de origem chinesa. Os dois demonstraram capacidade de mover opiniões em contextos eleitorais distintos.

O que muda no Brasil com as eleições de 2026

O cenário descrito nas pesquisas não é abstrato para o eleitorado brasileiro. Com as eleições de 2026 se aproximando, o debate sobre inteligência artificial na política ganhou urgência e o tema já chegou ao Congresso. A TV Senado, em parceria com o Senado Verifica, dedicou um programa a discutir como algoritmos moldam o que o eleitor vê nas plataformas digitais.

Segundo análise publicada pelo Poder360, o uso mais intenso da IA provavelmente não virá das campanhas oficiais, mas das bases de apoio e das militâncias digitais. Esses grupos já usam inteligência artificial para produzir textos, imagens, vídeos e memes em escala industrial, o que dilui responsabilidades e dificulta o controle sobre abusos e desinformação.

Desinformação e democracia em risco

Há aqui uma dinâmica preocupante que vai além da tecnologia. O problema não é apenas que a IA pode persuadir; é que ela persuade com mais eficiência quando recorre a informações falsas. Pesquisadoras da Universidad de Deusto, na Espanha, demonstraram em estudo citado pelo Migalhas que modelos de persuasão explícita ou indireta funcionam de formas distintas dependendo do contexto. O resultado prático é que eleitores podem ser conduzidos a apoiar candidatos ou ideologias sem perceber que estão sendo manipulados.

Esse risco se amplifica quando as plataformas digitais operam como câmaras de eco, reforçando narrativas específicas com base no perfil de cada usuário. Conforme noticiado pelo scienceai.news, o avanço dos grandes modelos de linguagem levanta questões crescentes sobre como a IA generativa pode remodelar eleições ao redor do mundo.

A janela para agir antes de 2026

A pergunta que fica não é técnica, mas política. Num país com mais de 156 milhões de eleitores e um histórico recente de desinformação em escala, o uso irrestrito de chatbots persuasivos representa uma ameaça concreta à soberania popular. O governo Lula 3 tem sinalizado preocupação com a regulação das plataformas digitais, mas o Brasil ainda não conta com legislação específica para o uso de inteligência artificial em campanhas eleitorais. A janela para agir antes de outubro de 2026 está se fechando.

Perguntas frequentes

Chatbots podem mesmo mudar minha intenção de voto? Sim, segundo os dois estudos publicados em Science e Nature. Uma única conversa pode deslocar preferências eleitorais em até dez pontos em uma escala de cem, especialmente quando o modelo é treinado para persuadir um eleitor específico.

Quais modelos de IA foram testados nas pesquisas? Os experimentos utilizaram versões do GPT-4, da OpenAI, e do DeepSeek, desenvolvido na China. Ambos demonstraram capacidade de influenciar opiniões políticas em contextos eleitorais reais, em países diferentes.

O Brasil tem alguma lei que regule IA nas eleições? Ainda não existe legislação específica para o uso de inteligência artificial em campanhas eleitorais brasileiras. O tema está em debate no Congresso, mas sem prazo definido para aprovação de regras claras antes do próximo pleito.

Como identificar se estou sendo influenciado por um chatbot? A dificuldade é justamente essa: os modelos mais persuasivos são os mais difíceis de detectar. Desconfie de argumentos muito bem articulados em favor de candidatos específicos e verifique as informações em fontes jornalísticas independentes antes de mudar de posição.

Fontes
  • oglobo.globo.com — https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2025/12/05/chatbots-de-ia-podem-influenciar-opinioes-politicas-de-eleitores-apontam-estudos.ghtml
  • poder360.com.br — https://www.poder360.com.br/opiniao/votos-e-algoritmos-como-redes-e-ia-podem-moldar-as-eleicoes/
  • www12.senado.leg.br — https://www12.senado.leg.br/tv/programas/cidadania-1/2026/03/algoritmos-e-ia-como-as-plataformas-moldam-o-que-voce-ve-na-internet
  • migalhas.com.br — https://www.migalhas.com.br/depeso/420522/eleicoes-e-ia-como-algoritmos-podem-influenciar-votos
  • visao.pt — https://visao.pt/opiniao/ponto-de-vista/igualmente-desiguais/2026-01-13-opiniao-quem-vota-a-influencia-da-ia-e-do-algoritmo/
  • mittechreview.pt — https://www.mittechreview.pt/2026/governanca/chatbots-ia-influenciam-eleitores-melhor-do-que-anuncios-politicos/
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