Reforma tributária pressiona pequenas empresas do Simples
Novas regras de reembolso de despesas podem reduzir a competitividade de 7,3 milhões de negócios do Simples Nacional a partir de 2027.
Novas regras de reembolso de despesas podem reduzir a competitividade de 7,3 milhões de negócios do Simples Nacional a partir de 2027.
Quase 7,4 milhões de pequenas empresas brasileiras vão enfrentar uma mudança profunda e pouco explicada a partir de 2027. A Emenda Constitucional 132, aprovada em 2023 e regulamentada pela Lei Complementar 214 de 2025, criou dois novos tributos sobre o consumo e, com isso, colocou em xeque uma prática comum em quase todo setor da economia: o repasse de despesas entre profissionais, empresas e clientes.
O problema é mais concreto do que parece. Quando um advogado paga o transporte a serviço do cliente e depois repassa esse custo na nota, esse valor é remuneração ou simples passagem de dinheiro? Com o Imposto sobre Bens e Serviços e a Contribuição sobre Bens e Serviços, os novos IVAs gêmeos brasileiros, o risco de tributação indevida ou de acúmulo de créditos exige que empresas e profissionais liberais repensem cada fluxo financeiro, conforme alertou o Valor Econômico.
O peso sobre os menores
O universo mais afetado tem rosto definido. Dados da Receita Federal citados pelo Em Tempo mostram que o Simples Nacional reúne hoje 7.348.088 empresas, o equivalente a 28,6% de todos os negócios ativos no Brasil. São padarias, salões de beleza, pequenas construtoras, consultórios e escritórios de advocacia operando com margens apertadas e equipes enxutas.
Para esse universo, a reforma não extingue o Simples, mas transforma sua lógica por completo. Até hoje, o microempresário pagava uma alíquota unificada e estava razoavelmente protegido de surpresas. A partir de 2027, precisará avaliar se faz sentido manter o regime ou recolher IBS e CBS fora da tabela simplificada, dependendo do perfil dos seus clientes e fornecedores.
No mercado entre empresas, a tensão fica ainda mais visível. Com a não cumulatividade plena, o crédito tributário vira moeda de troca na cadeia produtiva. Fornecedores dentro do Simples, que antes eram escolhidos pelo preço menor, podem se tornar menos atrativos para grandes compradores que precisam de crédito para abater o próprio imposto. Quem não fizer um planejamento tributário criterioso antes da virada corre o risco de perder contratos, não apenas pagar mais imposto.
O que a reforma não diz explicitamente
Nenhuma das fontes oficiais explica com clareza o impacto sobre quem está no extremo mais vulnerável da cadeia: o trabalhador autônomo e o consumidor de baixa renda. A reforma simplifica tributos, mas a adaptação das empresas tem custo, e parte dele tende a ser repassada aos preços finais. Quem compra no varejo, especialmente em regiões com menor concorrência, absorve essa pressão sem qualquer mecanismo automático de compensação.
O debate fiscal não é consensual. direita.blog analisa a reforma pelo ângulo da racionalidade fiscal e da desburocratização, argumento com peso quando se olha para grandes corporações. Mas dados do IBGE e da Receita Federal mostram que famílias de menor renda destinam proporcionalmente mais da sua renda ao consumo do que famílias mais ricas, tornando qualquer alta de preços induzida pela reforma uma questão distributiva, não apenas técnica.
O calendário e o que ainda pode mudar
A implementação começa em janeiro de 2027, prazo que parece distante mas não é para quem precisa adaptar sistemas de gestão, rever contratos e capacitar equipes. O Município alerta que empresas que deixarem para a última hora enfrentarão riscos operacionais sérios, de autuações a paralisações temporárias de atividades.
O governo Lula tem reiterado que a reforma foi desenhada para simplificar e reduzir desigualdades regionais no sistema tributário. A efetividade dessa promessa, porém, depende de regulamentações complementares ainda não publicadas e de uma fiscalização que proteja o pequeno negócio de interpretações desfavoráveis pelos fiscos estaduais e municipais, algo que o Em Tempo indica como ponto crítico para os próximos meses.
A reforma tributária pode ser a transformação econômica mais relevante desta geração. Bem executada, reduz a bagunça fiscal que pune quem não tem contador especializado. Mal implementada, vira mais um custo invisível que recai sobre quem menos pode arcar.
Perguntas frequentes
O que são reembolsos de despesas na reforma tributária? São valores gastos por um profissional ou empresa em nome de outra parte e depois repassados, como o advogado que antecipa transporte pelo cliente. A EC 132/2023 e a LC 214/2025 geraram dúvidas sobre se esses fluxos devem ser tributados pelo IBS ou pela CBS.
O Simples Nacional vai acabar com a reforma? Não. O regime continua, mas muda de lógica. Micro e pequenas empresas precisarão analisar se compensa manter o Simples ou recolher os novos tributos fora do regime, conforme o perfil de clientes e insumos.
Quando as novas regras entram em vigor? A implementação plena está prevista para janeiro de 2027. A adaptação de sistemas fiscais, contratos e equipes deve começar imediatamente para evitar problemas operacionais na virada.
Quem é mais afetado pelas mudanças nos reembolsos? Profissionais liberais, como advogados e contadores, e empresas que compartilham custos dentro de grupos são os mais expostos ao risco de tributação indevida sobre valores repassados sem representar remuneração direta.
- valor.globo.com — https://valor.globo.com/legislacao/coluna/reembolsos-de-despesas-na-reforma-tributaria.ghtml
- emtempo.com.br — https://emtempo.com.br/459253/economia/reforma-tributaria-muda-regras-do-simples-nacional/
- omunicipio.com.br — https://omunicipio.com.br/economia/o-que-muda-com-a-reforma-tributaria-em-2027/